Somos arrastados pela vida que nos arranha na face rugas irreversíveis, esmorece nossos músculos e ainda por cima nos descarta ao fim da travessia.
Como Paulinho da Viola em “Timoneiro”: “Não sou eu quem me navega/Quem me navega é o mar”, fica sempre no ar a vontade de se agarrar a alguma coisa sólida, para nos dar a sensação de ter, na mão, o controle do timão.
Nos apegamos então à função no emprego, ao casamento, à casa, ao carro, à coleção de sapatos ou de relógios de pulso. Nos vinculamos a igrejas, clubes de futebol ou partidos políticos. Tentamos, a todo custo, cauterizar em nossas vivências sociais a marca sólida de uma vida, que logo percebemos, se sustenta através de orações sem efeito, euforias que se repetem ou compromissos não necessariamente respeitados.
Nossas instituições tidas como estáveis, como a empresa que trabalhamos ou fundamos ou na família que somos pai, mãe, filho ou filha, se dissolvem quando as reavaliamos com a serenidade que a sabedoria dos sobreviventes nos impõe.
A exemplo do que Dee Hock alerta em “Nascimento da Era Caórdica”, temos o hábito de ver a família, a empresa, até mesmo a igreja como realidades físicas e palpáveis, como um prédio ou uma máquina. Suave ilusão que não resiste à indagação mais simples: “Qual é a cor da IBM, ou do governo Lula, ou da Igreja Católica?”
A mesa do chefe, o seu carro, seu terno azul, seu mau hálito, tudo se esvanece se não se compor com os relacionamentos sustentados pelos seus subordinados, clientes e fornecedores. Chefe, sim, mas apenas um ponto na enorme rede que mantém a empresa no cenário econômico. Basta olhar pelo retrovisor e a gente passa por prédios abandonados, que antes tinham salas enormes para gerentes seguros de seus destinos. Tudo devidamente evaporado por uma mudança não percebida, ou percebida fora do ritmo adequado à sobrevivência da organização.
Por isso que o pai do poeta de “Timoneiro”, nos avisa: “- Olha, o mar não tem cabelos/Que a gente possa agarrar”. Nem a vida, que nos deixa apenas as memórias que se reagrupam em nuvens de recordações, que dependendo do tamanho das ondas dos oceanos que cruzamos, desenham as tempestades e apresentam as contas.
Quando passamos a régua nas contas da vida, sempre parciais, porque ainda estamos vivos; e imaginárias, porque nem sempre precisas, mantemos a força do hábito e as organizamos em livros caixa do deve e haver. Associamos os resultados, então, aos ganhos e perdas e a indicadores que nos validam como vencedores ou perdedores. Nem sempre de acordo com nossos próprios juízos de valor, reféns, que às vezes somos, da percepção alheia.
Até mesmo quando aparentemente nos percebemos como vencedores, apoiados em evidências tidas como sólidas como um carro, um apartamento, uma tv de tela plana ou uma impressionante sala de gerência, percebemos que são, na verdade, códigos que nos remetem, de novo, para uma vasta e relativa rede apoiada em fatos que povoam, como icebergs, a travessia turbulenta. Avaliados, na maioria das vezes, a posteriori. “Escapamos daquela crise.” Ou: “Por sorte, conseguimos pegar aquele contrato.”
Sobra então o quê? Há uma vida a contabilizar ou estamos, mesmo com toda a expertise, laptops e softwares acumulados, fazendo a conta errada?
Talvez seja a hora de acrescentar em nosso livro caixa a terceira folha e mantê-la suspensa entre o deve e haver. Imaginária, por certo. Mas que registrará as motivações e os retornos emocionais de cada atitude que adotamos.
Atitudes que ficarão registradas em outras memórias, muito além das que nos percebem mais de perto, flutuantes no inconsciente coletivo de nossa época. Que serão devidamente combinadas e contabilizadas com o deve e haver e nos provarão, em cada etapa, que temos oportunidades iguais para acessar e acumular, ainda em vida, riquezas emocionais.
É esse capital emocional, dependente absoluto de nossa imaginação, que dividiremos e mesmo assim o multiplicaremos em riqueza emocional, com sua ajuda, nas próximas páginas. Tentaremos resgatar e reconstruir a espiral emocional para dentro de nós mesmos.
Porque, como descobriremos, o capital emocional é apenas um artifício que aceitamos para nos ajudar a identificar a riqueza emocional acessível em cada etapa de nossa sobrevivência. É como o prumo que depois ninguém mais percebe nos prédios que construímos. Mas o prumo está lá, garantindo a vertical e a sustentação do conjunto da obra.
E como o prumo aponta para o centro da terra, o capital emocional que sustentará nossas indagações e reflexões nos levará direto para dentro de nós mesmos, onde acumulamos a energia emocional que dá origem e sentido a todos os investimentos que realizamos de forma vitoriosa há milhões de anos. E que transformamos em riqueza ou pobreza emocionais, quase sem perceber, desde o primeiro choro até o último suspiro.
Riqueza ou pobreza emocionais que distinguem os que pesquisam o mercado emocional à sua volta, correm riscos e investem, dos que apenas se deleitam em gastar dia após dia o principal de seu imenso capital emocional. Ou ainda os que se percebem, de uma hora para outra, moedas emocionais sem valor, pois deixaram escapar pelo meio das pernas, dos sentidos e sensações a riqueza emocional que é transferida com a plenitude da vida a cada um de nós. E que pode a nosso critério ser ampliada, gasta com parcimônia ou simplesmente esbanjada.
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