Nascemos negociando emoções. Ou você pensa que chorou só para treinar as cordas vocais? Também. Mas gastou até sete por cento de todo o seu tempo disponível até atingir os nove meses, em prantos. Faça as contas e se verá num verdadeiro vale de lágrimas. Sete por cento de nove meses somam 459 horas e 54 minutos. Ou 27.594 minutos. Como nos ensina a médica, mestre e comentarista da BBC, Trisha Macnair, graduada pela London University.
Você chorou nas várias modulações de cólica, fome, solidão e, principalmente, manipulação e chantagem. Chorou como nem mesmo as carpideiras o conseguem para chamar a solução para seus imensos problemas de sobrevivência. E conseguiu. Hoje, bata no peito. Você é um vencedor ou uma vencedora.
Porque soube espernear em altos brados para estabelecer uma moeda emocional de troca com seus pais, pois você já nasceu com a convicção ancestral que podia recorrer a este capital emocional disponível nos corações e mentes dos adultos ali por perto. Afinal, pelo menos dois deles, um homem e uma mulher, eram cúmplices na sua fecundação e gestação e, agora, fora do útero, bambo das pernas, sem dentes e sem dominar a língua deste mundo, você não tem outra alternativa senão exercer todo o poder de alavancagem que seu capital emocional permite.
É através do choro, ainda bebê, que você inicia suas primeiras vitórias e dá grandes passos para garimpar, em seu nome, grandes quinhões do capital emocional diluídos nas redes de relacionamento e impregnados na genética ancestral de todos ao seu redor.
O bebê chorão, que você foi um dia, é diretamente responsável pela sua sobrevivência e ainda pulsa aí nas suas entranhas. Atento às nuances mais sutis de humor, pronto para reagir às pequenas indiferenças e desconfiado desde o berço dos sorrisos amarelos e dos beijos melados das tias.
O choro de resultados exige acessar todo o refinamento de sua intuição, que o acompanha ao nascer, associado à capacidade de manipular em causa própria as inseguranças alheias. E se falhar a manipulação, o choro intenso e dolorido atinge seus objetivos via chantagem. Só quem chora tem importância, porque o bebê chorão que nunca nos abandona nos arrasta, ainda, para o centro dos palcos da vida.
Mas como toda moeda, o choro só ganha validade se aprende a arte da troca com lucro. Por isso, umidificamos as lágrimas na tristeza alheia, sem esperar ganhos como as carpideiras o fazem. Neste caso, basta apenas nos posicionarmos junto ao amigo (ou parceiro de negócios) e recolher o reconhecimento naquela hora difícil. Dividimos lágrimas e multiplicamos confiança, essencial para a garantia de nosso capital emocional.
À medida que caminhamos por searas mais adultas, abafamos o choro de corpo inteiro, típico dos bebês, meninos, meninas e das carpideiras e simulamos, de verdade, outras lágrimas.
Aprendemos a elegância do choro contido ao ouvir Billie Holiday que nos habilita, depois de algum treino, a segurar no peito a explosão surda dos soluços nas transições amorosas ou nas decepções nos negócios e na política.
Sofisticamos o choro porque cada vez mais se torna a moeda emocional essencial para nossos ganhos pelo resto de nossas vidas. E o levamos para reuniões executivas, universidades, campos de batalha e gabinetes políticos. Ainda com a mesma intensidade e frequência dos nossos nove meses iniciais.
Mas executado de maneira indireta e combinado com uma frágil insinuação de voz misturada a soluços espremidos na garganta. E se falhar, às vezes nossos adversários também são experts neste tipo de manobra, transformamos o choro num berro incontido, num ataque surpresa fulminante, para intimidar, chantagear e impor nosso ponto de vista. Nem que seja para nos garantir uma dianteira de segundos, essencial para recuperarmos o fôlego e a iniciativa. O importante, nunca esqueçamos, é ter fé irrestrita no poder das lágrimas, visíveis ou não, para garimpar e alavancar, plenamente, nosso capital emocional.
Que na interface com os valores que deseja controlar, adota várias nuances: é envergonhado ou é um pedido de desculpas; é ostensivo, gritado ou comedido. Mas é sempre moeda emocional, que se acumula em lenços, mangas de camisa, corações e tímpanos. E se materializa em associações familiares, qual o casamento que se sustenta sem lágrimas? ou em alívio, ao nos livrar, por exemplo, de um relacionamento que esgotou o afeto, o respeito e a cumplicidade.
Quanto mais eficientes somos ao combinar nossas lágrimas vida à fora, seja ao soluçar, inutilizar lenços, sacudir o corpo inteiro ou simplesmente constranger nossos adversários com nosso olhar úmido, potencializamos ao máximo nossa moeda emocional se soubermos, por exemplo, manter, como referência inatingível, a riqueza emocional acumulada por Fernando Pessoa: "O poeta é um fingidor./Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente."
Tantas lágrimas investidas ao longo das gerações, se pagam. Pois em poucos e decisivos segundos podemos transformar tostão em milhão, respirar fundo, sorrir e dar a volta por cima. Segurar o riso com os mesmos músculos do choro e conter a gargalhada que confirma que esta vitória é nossa. Arrancada nesta guerra contínua pela existência com lágrimas, suor e o gerenciamento lucrativo de nosso capital emocional.
Que começa logo que somos dados por nascidos, quando iniciamos o garimpo de nosso capital emocional na base do choro, do grito e do "jus sperniandi". Estabelecemos, então, um redemoinho de fraldas, carinhos e seios fartos para suprir nossa sobrevivência básica e nos tornamos experts nessa acumulação de capital emocional.
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